Era uma noite escura na pequena cidade de Beth, as nuvens tomavam conta dos céus e encobriam a lua cheia que já não podia brilhar.
Catherine, uma pequena garotinha com belos cachos dourados até os ombros, pele branca e rosada e olhos azuis como os céus num dia de primavera caminhava pelas ruas sozinha, porém nada temia, a noite era fria, mas ela tão triste estava que não se importava com o frio que sentia ou no quão sombria estava à noite; seus olhos nada viam, estavam ocupados com as lágrimas que por eles saiam e passavam a escorrer pelas bochechas, que se mantinham rosadas.
Depois de andar aos prantos pelas ruas da cidade durante muitas horas, ela começou a se cansar, e sentou-se abaixo de uma grande árvore, muito velha por sinal, seu tronco era grosso coberto por cascas grosseiras, suas raízes tomavam conta de grande parte da praça, onde ficava localizada, ela era muito alta, com muitas folhas de um verde escuro quase cinza, sua aparência não era nada alegre, sendo assim, Catherine sentiu-se à vontade para sentar-se sobre suas raízes, para ela pareceu que a árvore também estava sentindo a mesma tristeza que a dominava desejando companhia.
De repente uma brisa forte e gélida precipitou-se em direção a garota e sua nova companheira vegetal, ela tocou o seu rosto, e a fez sentir arrepios, um frio e um medo, que ainda não havia sentido, tomou conta de sua alma, agora ela passou a acordar para o que estava a sua volta, vê que a escuridão era intensa e o silêncio tenebroso.
Subitamente, surgiu ao longe, por entre os bancos da praça, um vulto mais escuro em meio à noite, ele se dirigiu em direção à pequenina, ela começou a sentir-se ainda mais amedrontada, agora o instinto, até então adormecido, falava mais alto e Catherine colou-se a correr o mais rápido que pode, porém o vulto continuou a segui-la, mas aparentemente se mantinha na mesma velocidade, mesmo assim, aproximava-se cada vez mais.
Catherine sentiu vontade de gritar, porém era como se a penumbra a sufocasse, não importava o quanto lutasse, nem um som conseguia imitir, apenas, correr, correr e correr, até que uma raiz da sua até aquele momento companheira, entrou em seu caminho, e a fez cair com o rosto esmagado no gramado verde oliva.
Quando tentou levantar-se, soltou um grunhido baixo de dor, seu tornozelo direito doía; o havia quebrado com a queda.
No momento ficou desesperada, sem conseguir se levantar, a menina começou a arrastar-se por entre o gramado que há muito tempo não era cortado. Seu vestido que antes possuía um rosa delicado, agora havia se tornado totalmente dominado pelo barro vermelho do gramado, que se agravava ainda mais devidas às gotículas de gelo que nele estavam.
Seus braços doíam, o cansaço passou a dominar seu corpo, ela que até o momento estava a ser guiada pelo instinto, tomou de volta a consciência e então pensou: “mas porque fugir? Se a vida me levou toda alegria? Se ela me levou a todos que amo e me trouxe solidão, porque lutar para viver, se vida não possuo?”.Desistiu, parou de arrastar-se pelo chão e virou-se para o céu. Assim, estava ela deitada, esperando a criatura que a seguia, e que nada amigável lhe parecia.
A espera parecia-lhe uma eternidade, mas passaram apenas alguns minutos até que avistasse o ser que a estava seguindo, que se iluminou por uma fraca luz vinda de um delicado lampião.
Catherine viu dois grandes olhos que lhe pareciam vermelhos sangue, em um rosto incrivelmente pálido, porém muito belo, o rosto de um homem, se é assim que modia ser chamado, alto, com lábios carnudos e rubros, possuía cabelos compridos e negros que desciam em cachos até os ombros largos, realmente era um homem lindo, mas assustador.
Catherine nem por um momento o olhou com malícia, afinal, tinha somente dez anos, mas nada falava, não chorava, nem mais gritava.
Ele fitou-a e falou com sua voz suave e aconchegante, contudo, ainda assustadora: - Boa noite, estas só em uma noite tão maravilhosa, bela menina?
“O que?”, Catherine não compreendeu o que havia acabado de acontecer, ele não iria matá-la, um ser tão assustador, como pode agir como um completo cavalheiro, gentil e educado?
Mas, apesar de sua mente confusa, não se calou, respondeu, com a voz mais aguda e baixa que podia, talvez desejando que ele não a escutasse ou apenas por estar tão cansada, triste e com seu corpo gelado em tal ponto que não encontrou forças para sequer pronunciar algumas palavras de forma audível. Mas o ser a sua frente a escutou, como se fossem gritos: - Não existe mais ninguém que possa me fazer companhia senhor. E acho que esta noite não está tão maravilhosa assim...
-Isto é apenas uma questão de opinião bela menina, para mim, todas as noites são maravilhosas, não consegues ver, a magnitude, a coloração, o esplendor e o silêncio do anoitecer?
-Senhor, não posso ver muito neste escuro... Mas, quem é o senhor?
- Compreendo. Eu? Já possuí muitos nomes, mas, há muitos anos eu era chamado de Alexandre Von Gruch Leffyl. E qual seria a sua graça?
-Graça?
-Teu nome bela menina.
-Cathe...Cathe...ri...- Ela não possuía mais forças, o frio e o cansaço consumiram-na a tal ponto que a afizeram desmaiar.
Sua cabeça latejava, seu corpo doía, e o frio que sentia era intenso; um cansaço tomou conta de sua alma, mas algo lhe intrigava, e isto não poderia ser deixado de lado.
Ela se encontrava vestida com uma finíssima camisola de seda cor de rosa, com mangas longas que caíam como um véu em suas mãos, estava deitada em uma cama grandíosa, com lençóis macios, dourada e toda entalhada em forma de ramos de louro, tendo cortinas brancas acetinadas cobrindo toda sua volta. Ao olhar mais ao redor, notou que se encontrava em um quarto grande e luxuoso, o piso era de madeira tão brilhante que via seu reflexo refletido nele, as paredes eram de pedra escura, as janelas eram portas de vidro que dão em uma belíssima sacada, uma cortina dourada caía sob as mesmas, e não se viam seus detalhes claramente; no quarto também havia um grande tapete de pêlo escuro abaixo da cama, seis quadros permaneciam pendurados nas paredes, sendo que as pinturas retratam, todas sem exceção, paisagens belíssimas a luz do luar. Ao lado da cama via-se um criado-mudo também dourado e entalhado, mas que continha, sobre si, um pequeno castiçal com três velas compridas e negras e aos seus pés existia uma pequena mesinha com uma jarra e uma taça, ambos dourados com detalhes em pedras rubras e reluzentes.
Era noite e apesar de estar em um lugar tão belo, via-se assustada novamente - “Afinal, o que aconteceu?” - perguntava para si confusa, a última coisa que lhe vinha à memória era ela a espera da morte em um gramado fixando seus olhos em um homem extremamente tenebroso e belo.
Até que a porta na parede esquerda do cômodo se abriu, e de lá brotou um ser branco como a neve - é o belo da praça, que a havia assustado anteriormente – constatou ela.
Ele aproximou-se dizendo - Fico alegre em saber que despertastes, eu a trouxe para meu lar, pois como deve se lembrar bela menina, tu desmaiaste, em meio à praça, em minha frente.
Assustada falou baixinho - Eu...Desmaie...? Hãm...Obrigada por cuidar de mim, desculpe-me pelo incômodo, mas não se preocupe eu já vou indo, não quero incomodá-lo mais.
Ela tentou se levantar, porém ainda tonta precipitou-se contra o chão, mas não caiu, o ser a sua frente a segurou – Bela menina, não se aprece, deite-se durante mais algum tempo, que logo a levarei onde desejar.
Ele a colocou na cama novamente, não resistindo ao cansaço que ainda possuía diz apenas uma palavra antes de adormecer – Obrigada.
Seus olhos abriram lentamente, estáva acordada, no mesmo lugar que a assustou até pouco tempo, mas que agora se tornou aconchegante com uma paz intensa, ela se sente bem, finalmente, não sabe quanto tempo dormiu, porém não se importou, fitou a pintura que se encontrava delicadamente desenhada, no teto, por alguns minutos, até que a porta do aposento se abre, era aquele senhor novamente.
-Vejo que acordastes bela menina, senti-se melhor?
Ela o olhou, mas o medo não a dominou novamente, sorriu e disse carinhosamente - Sim, estou bem agora senhor Leffyl, muito obrigada, você foi muito bom comigo, não tenho como agradecer.
- Se me permite, me basta como agradecimento que me digas o que fazias sozinha em meio às ruas?
Catherine que até então havia recobrado parte de seu ânimo, lembrou-se do que aconteceu, abaixou os olhos, e começou a chorar, não pode evitar, por mais que tentava as lágrimas continuam a sair de seus olhos, na frente de um homem que ainda era considerado desconhecido.
Ele não a consolou, fixou seus olhos rubros nos dela por alguns segundos, até que por um passo de mágica as lágrimas da pequena garotinha cessaram abruptamente; ele a olhou e disse com uma voz grave, porém mansa –Bela menina, não fales mais nada...Não desejo de maneira alguma feri-la ainda mais, faça-me um pequeno favor, se não podes me conceder o anterior, pense em ficar em minha morada, neste extenso castelo, vivo apenas com minha fiel governanta Judithy, assim me mantenho sedento de companhia, me traria majestosa alegria caso fizesse deste lar teu, isso se desejar, apenas se desejar.
Catherine olhou para baixo vagarosamente, em seguida fixou seus olhos grandes e azuis banhados por lágrimas cintilantes nos dele e pronuncia com uma voz baixa e chorosa – Posso mesmo?
Ele sorriu e a abraçou, ele não era mais nem um pouco assustador.
Cap.02 – O início
Desde a proposta, Catherine ficou adormecida por três dias para se recuperar, sua saúde se encontrava muito debilitada, então o descanso foi bem vindo.
Ela despertou vagarosamente, sentou-se na cama e olhou ao redor, avistando uma senhora robusta, de estatura mediana, cabelos presos impecavelmente em um coque, com um vestido negro colado ao corpo, com botões em toda sua extensão. A senhora tinha em suas mãos uma grande bandeja de prata, em que repousavam deliciosas guloseimas; biscoitos, leite, pão, uvas e morangos, queijo branco, chá, café e suco de laranja. Tudo devidamente organizado, em uma deliciosa composição de cores e aromas.
A senhora fitou, com um largo sorriso, Catherine. – Olá querida, você deve estar faminta, dormiu por dois dias, sabia que despertaria logo assim preparei alguns quitutes, espero que goste, caso queira mais alguma coisa eu sentir-me-ei honrada em servir-lhe.
Não estava assustada, a face daquela senhora era acolhedora, no entanto, não sabia o que dizer ao se deparar com tanta atenção, assim, vem-lhe a mente apenas uma resposta - Hum... Quem seria a senhora? – Como sou desatenta, nem havia me apresentado, chamo-me Judithy, sou governanta da casa, sirvo ao mestre Leffyl há muitos anos. Pretendo servi-la da mesma forma, tudo que necessitar estarei ao seu dispor.
- Prazer em conhecê-la senhora... Muito obrigada.
Judithy Colocou a bandeja em um pequeno criado ao lado da mesa e dirigiu-se em direção a Catherine dizendo. – Querida, deixe-me ajudá-la, ainda deve estar fraca.- A senhora levantou Catherine delicadamente para que se sentasse, na cama, ereta.
-Coma querida, apenas assim se recuperará cem por cento.
-Já estou bem senhora, não se preocupe comigo, mas vou comer um pouquinho...
-Espero que goste de tudo!
Catherine iniciou sua refeição, enquanto isso, Judithy dirigiu-se a um armário antigo e simples, no canto do quarto, do qual retirou um longo vestido vinho de veludo,simples, mas muito elegante.
- Querida, creio que este vestido lhe sirva, quando desejar se levantar, pode vesti-lo. Agora, com sua licença, vou me retirar.
-Senhora?
-Sim querida?
-E... E aquele senhor, onde ele esta?
-Mestre Leffyl esta dormindo no momento, não podemos incomodá-lo querida, mas assim que anoitecer creio que já terá despertado, apronte-se quando desejar, posso lhe mostrar os jardins.
-Entendi... Mas que horas são?
-Já passa da hora do almoço querida.
-Obrigada.
Judithy, aos pulinhos retira-se e fecha a porta as suas costas.
Catherine observou toda aquela comida, nunca havia visto tanta reunida em sua vida, comeu o quanto pode, mas chegou a um ponto que já estava extremamente satisfeita. Aliviada, arrumou a bandeja e colocou-a no criado mudo, não iria devolvê-la a Judithy, pois não havia aguentado comer tudo e tinha vergonha de transmitir o fato a governanta, comeria mais tarde. Agora se dirigiu ao vestido, tocou-o – “Tão macio! Lembra-me Tito”. Este pensamento a fez sorrir, mas logo a tristeza se abateu e chorou por somente alguns segundos. Limpou seu rosto, vestiu-se e precipitou-se a porta, abrindo-a.
Ela dava para um longo corredor de paredes de pedra escura, varias janelas, agora abertas, se estendiam por todo comprimento, assim como várias arandelas, douradas com três velas cada, que no momento estam apagadas.
Pela primeira vez iria sair do quarto, afinal, não havia participado de sua própria chegada. Colocou um pé para fora, tocando o chão de pedra, estava frio, lembrando-a que estava descalça. No momento que se colocou inteiramente no correr um arrepio descomunal subiu por sua espinha, estava amedrontada, sabia que algo irá começar, mas este pensamento logo lhe saiu da cabeça, dando lugar a uma curiosidade para conhecer o que viria depois do corredor. Antes, sentiu vontade de tocar as arandelas – “tão bonitas, parece do castelo da bela e a fera”, pensa sua mente infantil.
Olha para o chão e vê ao lado da porta, um par de sapatilhas pretas brilhantes, acha-as lindas, coloca-as servindo perfeitamente, e sai andando.
O corredor era longo, já estava ficando impaciente, começou a correr, até que finalmente chegou a uma escadaria, não sabia que estava em uma torre, olhou escada abaixo – Como é alto...- pensava tremendo um pouco.
Começou a descer vagarosamente, colocando os dois pés em cada degrau antes de descer o proximo. Até que finalmente chegou ao final da interminável escadaria, sentiu um alivio no peito, realmente não gostava de alturas.
Agora se encontrava em um patamar de frente a outras duas escadarias que desciam em direção ao mesmo local. Olhou em frente e avistou a baixo o outro cômodo “Que sala linda, tão grande, estou me sentindo tão pequena aqui”, pensou ela. Logo, desceu as escadas, contudo vagarosamente como já havia feito com a outra escadaria.
Sentiu-se sozinha, não havia ninguém ali, sabia que naquele lugar gigantesco haviam somente duas pessoas, contudo, ainda não era acostumada com a solidão e a quietude que isso significava.
Continuou caminhando, observou a gigantesca mesa de quinze lugares, as cadeiras ornamentadas em dourado, o chão de pedra, o magnifico lustre preso ao teto alto, “parece de cristal”, pensa. Avista uma porta a direita, a abre receosa, avistando um pequeno corredor sem janelas, o atravessa correndo, o escuro a encomodava.
Finalmente, chegou a claridade, estava em uma cozinha rústica, panelas se apresentavam presas a uma parte baixa do teto, o fogão a lenha ocupava muito espaço, assim como os balcões de madeira escura.
Absorta nas chamas da lenha a queimar, não notou que a velha senhora acabou de sair de uma pequena porta atrás dela, assustando-se quando Judithy fala- Catherine! Que bom que está em pé querida, ficou linda neste vestido.”- Catherine salta com o coração acelarado.
-Minha nossa, lhe assustei menina? Me desculpe, estava na dispença atrás de sal para a carne, se não deixá-la de molho no tempero, não ficará perfeita. Quer um pouco de água? Não parece bem.
-Há..tudo bem moça, eu estava distraida mesmo.
-Pois bem, que tal nós duas temperarmos a carne e depois passearmos nos jardins?
-Não vou atrapalhar? Este lugar é tão grande! Como a senhora arruma tudo isso? A minha mãe...ha...
Judithy olha de esgueira e sorri.- Magina, este lugar é realmente imenso, mas amo o que faço, trabalho aqui desde sempre, estou acostumada com os muros do castelo, parece até que tudo aqui se limpa sozinho. – Ri baixinho. – Então vamos. Sabe cozinhar querida?
-Eu? Sei algumas coisas, ajudava bastante lá em casa.- Catherine se coloca a chorar novamente, ao mesmo tempo que Judithy se precipita para abraça-la, a coloca em seus braços e a aperta forte contra o peito, surpreendendo Catherine que cora, “que quentinho”, pensa aconchegada no colo de Judithy, apesar da vergonha, sentia-se melhor agora, saindo devagarinho dos braços da mulher.
Limpa seu rosto com as mangas do vestido, passa a mão nos cabelos e mostra um olhar vivo novamente.
-Hum...Vamos cozinhar então?, dá um sorrizinho tímido.
Cap.03 - Ele
Continua...